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TERRITÓRIO LOVECRAFT DE MATT RUFF - Quando o horror do racismo supera o medo do sobrenatural.
- srtmerlin

- 19 de fev. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de fev. de 2021
RESENHA - TERRITÓRIO LOVECRAFT
“Seria tedioso ler só sobre pessoas como eu o tempo inteiro”, autor de Território Lovecraft, Matt Ruff.

Matt Ruff nasceu na cidade de Nova York, em setembro de 1965. Decidiu ainda criança que seria autor de ficção, e passou toda sua juventude aprendendo a contar histórias. Hoje é um autor aclamado pela crítica, vencedor de diversos prêmios. Ele é o autor de sete romances, incluindo Fool on the Hill, Bad Monkeys, Set This House in Order, The Mirage e Sewer, Gas & Electric. Seu romance Lovecraft Country de 2016 foi adaptado como uma série da HBO por Jordan Peele, Misha Green e JJ Abrams, e publicado no Brasil pela editora Intrínseca em 2020, como Território Lovecraft.
“(...) Ai residia o horror, a coisa mais abjeta: ter um filho que o mundo quer destruir, e saber que é incapaz de ajudá-lo. Não existe nada pior que isso. Nada pior.”

Terminei essa leitura e devo aqui admitir, demorei um tempo para digerir tudo. Foram muitas emoções a cada capítulo, algo que se intensificou enquanto acompanhava os episódios da adaptação na HBO. A estrutura do livro não é tão divergente da série, os capítulos são separados por contos, cada conto é referente a um personagem e todas essas histórias se entrelaçam tornando-se uma.
São tantas referências a ilustres autores que isso para um fã da cultura pop pode ser quase um deleite, se Matt Ruff não fizesse questão de jogar na nossa cara os defeitos desses autores; seus preconceitos. O livro não leva o nome “Território Lovecraft” sem motivos, o autor nos faz entender que nem mesmo as grandes obras e seus criadores são isentas de erros. E esse é um dos conflitos de um dos personagens, que apesar de grande fã de alguns autores, precisa em algum momento de sua juventude enxergar que o racismo está nas entrelinhas dessas histórias.
“Pois nada era mais frustrante do que viajar milhares de quilômetros só para encontrar os mesmos racistas com quem você tem que lidar todos os dias no próprio país.”
O racismo é a base desse livro, o maior terror de uma pessoa negra. Não é o medo do sobrenatural, o que faz os personagens se sentirem desesperados é o preconceito do dia a dia. E cada conto apesar de abordar o desconhecido, revela que o racismo está enrolado na narrativa como o verdadeiro monstro. Embora se passe em 1950, as situações parecem tão atuais que me fizeram tremer de horror, mesmo sem Jim Crow, pessoas negras continuam sendo desumanizadas.
Matt Ruff é um homem branco, reconheceu seus privilégios e os abordou de maneira visível ao escrever esse livro. Entretanto, em alguns momentos é quase impossível não lembrarmos que quem escreveu aquilo foi uma pessoa branca. Para mim, a prova disso é a narrativa do personagem Caleb Braithwhite, que você nunca sabe ao certo se é um cara tão ruim assim, sendo que sim, ele é ruim.
“Em um dos postos de gasolina, o banheiro para negros, estava quebrado e, quando o atendente se recusou a dar a chave do banheiro dos brancos, Atticus foi forçado a urinar dos arbustos atrás do estabelecimento.”
Claro que isso foi uma percepção minha e outras pessoas podem enxergar diferente, mas o final do livro me deixou um pouco decepcionada, como se um jovem branco, membro de uma seita de feiticeiros supremacistas brancos, na verdade, não fosse tão vilão assim.
É difícil não fazer uma comparação com a série, mas acredito que seja necessária. Algumas questões que não existem no livro, são colocadas na adaptação de maneira excelente e indispensável, pois mostra a realidade e o que realmente aconteceria com pessoas negras no mundo em que vivemos. O livro tem seus pontos negativos, mas também tem seus positivos; como qualquer outra obra.
“Mas histórias são como pessoas, Atticus. Nós até podemos amá-las, mas não podemos alegar que são perfeitas. Sempre tentamos enaltecer suas virtudes e revelar seus defeitos, mas isso não faz os defeitos desaparecerem.”


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